O Mito Maniqueu da Criação

Antes mesmo de tudo ser criado, haviam dois princípios de criação distintos, que viviam isolados em seus respectivos reinos: o reino da luz e o reino da escuridão.

Num primeiro momento, estes reinos viviam em paz, pois estavam “adormecidos”, não havia auto-consciência ou auto-percepção de si próprios. Mas era preciso que estes reinos acordassem; e foi então, que no reino da escuridão, isto se deu  primeiro. Foi quando uma centelha dos seres de luz lhes apareceu repentinamente  e,  neste exato momento, os seres da escuridão acordaram.  A escuridão tornou-se consciente de que ela não era luz!

Em estado de desânimo e desespero, os seres da escuridão sentiram um desejo profundo de ser luz também. E desse desejo nasceu a vontade de ir em direção ao reino da luz e ocupá-lo, na esperança de se tornarem luz.

Foi no momento em que a escuridão se preparava para ocupar o reino da luz que este reino acordou pois eles entenderam que havia um perigo e por isso acordaram.

Imediatamente um conselho foi formado no reino da luz para que eles se decidissem sobre o que fazer. Como eles deveriam se proteger?  Deveriam preparar um contra-ataque? Construir uma muralha ao redor do reino?

Começou então a existir uma espécie de conflito no reino da luz até que decidiram-se que não iriam se proteger ou mesmo atacar, mas sim, ir de encontro às forças da escuridão. Pois se eles quisessem continuar sendo luz era preciso manter-se como luz, sendo verdadeiros com a sua natureza.

Dentre todos os seres de luz havia um ser que representava todo o reino da Luz e foi este ser que foi ao encontro dos seres da escuridão. No momento do encontro houve um terrível ataque a esse ser de luz pelas forças da escuridão, pois eles queriam um pedaço da sua luz, eles queriam ser essa luz. E foi então que eles o despedaçaram e, de maneira a ter certeza que ficaria com eles essa luz, comeram seus pedaços.

Após esta batalha, uma nova substância foi criada. O ser da escuridão que comeu uma parte do ser da luz não era mais escuridão e também não era luz, mas se tornou uma mistura de ambos.

E assim começou a criação: surgiu o cosmos, a Terra, os minerais, as substâncias terrenas, os animais, as plantas e o ser humano.


A Redenção do Mal.

Agora o ser humano pode acordar – no sentido espiritual da palavra, e quando ele desperta, ele percebe que é o ser onde bem e o mal estão misturados. Desse momento em diante, dentro do ser humano, a luz e a escuridão se tornam princípios morais.

Para os maniqueus, bem e mal, no fundo, são da mesma espécie, tendo a mesma origem divina, são idênticos quanto ao seu começo e ao seu fim.

Segundo o princípio da redenção existente no maniqueísmo, o reino da escuridão deve ser vencido pelo reino da luz, não pelo castigo, mas pela suavidade, não pela resistência ao mal, mas mediante a miscigenação com o mesmo, a fim de redimi-lo.

De acordo com os passos que o ser humano vai dando, o princípio do mal pode ser redimido a partir do bem. Bem significa integrar e, aceitar é característica dele. Eu integro, aceito na minha vida as pessoas que pensam diferente de mim…

O bem que vive no ser humano que é capaz de levar à redenção se torna uma nova luz e a escuridão que começa a ser redimida mais e mais vai se transformando numa nova luz também.

Essa é a visão que os maniqueus tinham do fim dos tempos. Onde toda a escuridão ou maior parte da escuridão se tornará  numa nova luz. Assim teremos uma nova terra, que sabemos ser a Nova Jerusalém.

Foram estes alguns dos ensinamentos que recebi de Christine Gruwez, pesquisadora belga que esteve na Sagres em agosto de 2012 para um workshop de dois dias e lançamento de seu livro: “O que é ser contemporâneo?”, da editora antroposófica, no qual ela aborda os 5 passos do caminho maniqueu do ser humano moderno para a redenção do mal.

Christine, grande estudiosa da cultura iraniana, há muitos anos empreende viagens no Irã, Ásia Central e China à procura de rastros do Maniqueísmo.

por Carlos R. C. Brito Jr.