Nos Passos de Goethe

Apontamentos sobre Observação Goethiana

“Conhecendo o mundo, o ser humano encontra a si próprio, e conhecendo a si próprio, o mundo se lhe revela.” Rudolf Steiner – GA40


A Observação

Era madrugada quando saímos para assistir ao maior espetáculo da Terra. Para nós, o palco principal era a praia do Campeche. Tínhamos como pano de fundo poucas nuvens esparsas, pequeninas estrelas no céu e o som calmo do mar de encontro com a areia da praia.

Uma brisa fez-se presente com seu toque suave e gelado despertando nossas almas, ainda sonolentas, para o que estava por vir. Aos poucos ouvia-se o cantar dos primeiros pássaros despertos no céu.

Sentados na areia contemplamos, em silêncio interior, a sublime canção do firmamento enquanto as cortinas da escuridão eram lentamente levantadas.  Foi quando, numa fantástica apresentação de dança matutina entre luz e escuridão, que surgiram as cores!

A cor rosa e as violáceas foram as anfitriãs do espetáculo junto com os vários tons de azul que permaneceram um bom tempo num degradê perfeito e bem ensaiado na imensidão que se desnudava à nossa frente.

De repente, fui surpreendido com o verde no céu. Que maravilha perceber o mesmo verde das matas em tom clarinho, bailando sua coreografia inata na atmosfera. O verde atuou como ponte para que os amarelos entrassem em cena e, com sua claridade e luz, anunciassem a chegada próxima de um ser nobre por natureza. Era a aurora do dia prenunciando a estrela maior do espetáculo. Imediatamente as cores alaranjadas adentraram o ambiente e começaram a estender compridos e longos tapetes de matizes vermelhos no horizonte.

Foi então, neste incrível bailado de cores no céu, que a hora anunciada se fez presente, saciando a expectativa da criança eterna que vive em cada um de nós. Vindo de um longínquo reino de além-mar, surgiu o Astro Sol com sua veste dourada, em toda sua glória e esplendor, iluminando nossas faces e aquecendo nossos corações; comunicando à todos que um novo dia começou. Raiou, raiou o dia! Na presença do sol meu coração sentiu alegria.

Esta observação do nascer do sol foi uma das várias vezes que fomos à praia durante o “Treinamento em Observação Goethiana” ministrado pela docente holandesa Clara Passchier – geofísica marinha, formada em arte, pintura e terapia artística; professora na Academia “The Wervel” na universidade “De Vrje Hogeschool”nos Países Baixos, no “Emerson College” na Inglaterra e na “Associação Sagres” em Florianópolis.


Teoria das Cores

Goethe (1749-1832) conhecido e aclamado como poeta universal foi também cientista e, com o foco nos seus estudos naturalistas é que vivenciamos durante 4 módulos sua visão de mundo inspirados por sua observação atenta, exata e sem preconceitos da natureza.

Goethe percebeu que as cores acontecem na relação da luz com a escuridão e à partir daí desenvolveu sua Teoria das Cores.

Segundo Goethe, “as cores são as ações e paixões da Luz” e é no nascer e no pôr do sol que este fenômeno das cores pode melhor ser observado.

Toda a ciência de Goethe está enraizada na vivência dos sentidos. O caminho que ele percorre é um caminho de desenvolvimento que você vai construindo dentro de você. Goethe não nega a realidade do Eu, para ele “os sentidos não enganam, é o juízo que engana”.

Mas não foi apenas o “vir a ser” das cores que Goethe estudou e fez observações  científicas. Seguindo seus passos, passamos a observar um outro fenômeno da natureza: o da metamorfose das plantas.


Metamorfose das Plantas

Metamorfose do grego significa mudar para outra forma e assim observamos todo o processo da vida: germinação, crescimento, florescimento, nova semente e morte, para então surgir uma nova planta.

A planta é um ser de vida, um processo do tempo que se processa no espaço, ela nos mostra que a vida não termina, a planta pode morrer mas daí surge a semente para uma nova planta.Tal qual a vida dos seres humanos! Eis a bela sabedoria que a planta nos ensina…

Para tanto fizemos várias observações de diversos tipos de plantas e germinação de sementes, tendo a planta como nossa maior mestra, e sempre fazendo pinturas em aquarela, pois segundo o cientista-poeta “somente aquilo que podemos desenhar de memória teremos realmente entendido”.

Todo o curso acontece através de vivências e atividades artísticas para que nós nos desenvolvamos não só como cientistas mas também como artistas.

Segundo Clara, a planta nos conta como quer ser observada e, no silêncio que temos dentro da gente, de repente pode surgir algo: é a “revelação”, que como Goethe diz, é o momento que percebemos que encontramos o “gesto”.

Neste trabalho treinamos o nosso pensar com as nossas observações. Observamos o surgimento e o movimento das folhas para chegar na flor, vimos os gestos e as qualidades das estações do ano que existem nas plantas. E depois, como tarefa para o próximo módulo, observamos e desenhamos também , cada um, uma planta nos seus diversos estágios – do nascer ao fenecer – o que foi apresentado no módulo seguinte.


Planta Arquetípica

Em sua viagem à Itália, Goethe chegou à idéia da “Urpflanze” – a “Planta Primordial” ou “Planta Arquetípica”. Esta seria um “arquétipo espiritual” que serve como modelo para todas as plantas manifestadas no mundo físico. Suas diferenças entre si seriam apenas realizações parciais desta idéia, devido às circunstâncias e limitações do ambiente. Quanto mais desenvolvida a planta, mais perto deste modelo arquetípico. Será que este conceito pode também ser aplicado ao homem?

Do reino vegetal passamos a observar o mundo das nuvens que tem o “vir a ser” mais rápido ainda – tempo e nuvens estão em mudança constante. Aprendemos a identificar, baseados na classificação de Luke Howard, utilizado por Goethe, os vários tipos de nuvens no céu. Fomos todos os dias à praia observar o tempo e as nuvens e, em meio a tanto movimento  de vento, nuvens, areia e processos internos, pintamos a paisagem dos quatro pontos cardeais. Observamos também como estávamos nos sentindo pois as nuvens mostram o que está acontecendo na atmosfera, no tempo, e toda a paisagem influencia nossa vida.


Conto de Fadas de Goethe

Neste módulo ouvimos, ao cair da tarde, o intrigante conto de fadas de Goethe “A Bela Líria e a Serpente Verde” que, dentre as muitas possibilidades de estudo e interpretação devido à profundidade do conto, nos remete também a pensar em como criar um ambiente seguro dentro de nós.

Goethe também estudou o reino animal mas não pôde completar seus estudos. No último módulo então, estudamos este reino e suas diversas formas manifestadas na natureza. A atividade artística foi a argila. Diferentemente da pintura, pudemos observar e modelar algo em 3 dimensões. Adentramos  também o Reino Humano com o estudo de partes pontuais do célebre, enigmático e grandioso “Fausto” de Goethe – obra que pode ser estudada durante uma vida toda.

Na última semana fizemos uma retrospectiva de todo o aprendizado do curso; cada um pôde dizer sobre seu desenvolvimento e os aprendizados que teve.

O curso todo foi permeado com obras de arte e, logo no início da manhã, tínhamos aulas de canto, o que nos preparava para receber os aprendizados e vivências do dia. Para tanto tivemos o carisma, bom humor e competência do professor holandês Ernst Amons que nos enchia de entusiasmo e júbilo com seu “Jubilate Deo”  entre outros cantos em latim. No último módulo, época de carnaval, tivemos surpresas no repertório. A tradução das palestras foi feita por Dieter Pfister.

Um dos maiores aprendizados para mim neste curso foi o de construir a “ponte de interesse” entre o meu mundo interno e o mundo externo que vive ao meu redor e que também vive dentro de mim. A união da “Arte” com a “Ciência” através do meu  “EU”.


O Despertar

 A professora Clara, com seu jeito único e seu amor por todos estes reinos e manifestações da natureza, sem falar em seu amplo conhecimento no legado de Goethe, conseguiu despertar em mim o entusiasmo em observar – com paciência e reverência – os fenômenos da natureza. Foi como se o mundo ganhasse novas cores, gestos, formas, palavras e movimentos. Como se a natureza o tempo todo quisesse nos dizer algo, nos ensinar algo sobre as leis eternas de uma sabedoria cósmica divina.

É triste notar que o caminhar da evolução da humanidade distanciou-se muito destes reinos e da importância que eles têm. Nós estamos vivendo uma guerra acirrada contra eles (ou seria contra nós mesmos?); com alimentos geneticamente modificados que destroem essa ligação com o mundo espiritual – com o arquétipo divino que precede seu nascimento; com animais que são maltratados diariamente com uma brutalidade sem igual; florestas e uma multiplicidade de seres sendo dizimados para dar lugar ao cultivo de uma única monocultura; rios poluídos… A Mãe Terra, genuína provedora, abundante e generosa, da Humanidade, tem agüentado os maus tratos do homem com a esperança materna de que seus filhos vão acordar a tempo. Mas, até quando?

É preciso que cada um de nós desperte e restabeleça a conexão com o divino que vive na Terra e em nós mesmos; colocando estes reinos no altar sagrado da consciência para que o novo homem religado de novo aos processos naturais e divinos possa fazer surgir, agora com a liberdade da sua consciência, uma nova terra – sem males – e em total harmonia com as Hierarquias Superiores.  E é somente através da convivência harmoniosa, responsável e sábia com a natureza que isto é possível.


Por Carlos R. C. Brito Jr.